A aula já tinha começado quando aquela meninazinha entrou
com a caixa. Ou seja: ela estava atrasada. Atraso provocado por aquela caixa.
Ou melhor: pelo embelezamento da caixa. Era uma simples caixa de sapato, não
muito nova. Pediu à mãe que deixasse a caixa "bem bonita".
- Que arrumação é essa? - perguntou a mãe.
- A tia que pediu - explicou a meninazinha.
A tia a que ela se referia não era a irmã de sua mãe ou a
irmã do seu pai, era a sua professora, a Tia Cileide do 1° Ano do ciclo de
alfabetização. E não adianta explicar para a meninazinha que professora não é
tia, por mais bem fundamentados pedagogicamente que estejam os seus argumentos.
Se alguém falar da Tia Cileide na sua frente, essa
meninazinha, que é tão educada, pode mandar pra lua sua boa educação. É que ela
vive sob o encantamento da caixa "matemágica" que a Tia levou pra
escola. Tem sido assim há um mês.
Na última aula a professora comentou que no próximo ano -
vejam bem, no próximo ano - cada criança deveria pedir a mãe para decorar uma
caixa de sapatos e ter, assim, sua própria caixa "matemágica".
Distraída, ansiosa, encantada com aquele objeto de cujo
interior a professora retirava outros objetos (numéricos, coloridos, de formas
diversas), a meninazinha não ouviu a expressão "próximo ano", mas
"amanhã". Chegou em casa e falou pra mãe.
A mãe - uma mãe proletária, cheia de afazeres, portanto -
não "otimizou" o seu tempo (que mania têm as mães de não otimizarem
seu tempo!), deixando assim pra fazer a caixa meia hora antes de a filha ir pra
escola.
Amanhã você leva - disse subitamente a mãe para a
meninazinha.
- É pra hoje e eu só vou pra escola se a senhora
"fazer".
- Ah meu Deus! - suplicou a mãe, aborrecida.
Aborrecida ou não, lá estava a mãe com a mão na massa. E o
resultado final foi uma bonita caixa, irreconhecível como ex-caixa de sapato.
Arrumou a filha e mandou-a pra escola:
- Vai-vai-vai que a aula já começou.
A escola ficava a três quarteirões dali.
A meninazinha chegou atrasada, os colegas estavam sentados,
a professora, de costas, arrumava sua mesa para começar a aula.
Calada, a meninazinha tocou de leve a professora e entregou
a caixa. Por alguns segundos, Tia Cileide tentou entender o que estava
acontecendo; logo entendeu o equívoco da criança. A meninazinha sentou-se, a
professora não teve a coragem de lhe dizer que aquela caixa não era necessária
naquele dia. Quem seria louco de desfazer o encanto daquele momento mágico?
Você seria?
Santa Inês, Maranhão, 22 de novembro de 2014.
Para Marina, Fernanda, meus colegas orientadores de estudo, os professores alfabetizadores e todos os
que lutam em prol da alfabetização na idade certa em nosso país.
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